O quanto te odiei

O quanto te odiei nestes últimos dias por estares apartado. O quanto mandei vir por não te ver, porque tu não querias (e tinhas esse direito) e eu, saudoso, ansiava ver o meu tio, o meu confidente e meu amigo. O quanto te odiei por não te teres despedido (tu já sabias não era?).

O quanto te odiei por te afastares nestes últimos tempos, por corromperes a tua vida e por abdicares da mesma. O quanto te odiei por não sentir o teu abraço alegre e cheio de essência.

O quanto te odiei por me detestares, quando eu só queria o teu bem. O quando te odiei por não ouvir a palavra “adoro-te” uma última vez.

O quanto te odiei porque ainda acalentava esperanças e via-te a desistir. O quanto te odiei por estares distante e de olhar desalentado (era óbvio que adivinhas o que aí vinha).

O quanto te odiei porque te adoro! Adeus meu tio, meu tutor neste caminho efémero a que chamamos existência e, acima de tudo, adeus meu tio estimado.

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Numa esplanada a tentar apanhar o sol

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Num mundo feliz enfeitado por um arco-íris e iluminado por um sol muito irradiante, o meu dia brilha até onde a vista alcança. À noite, o céu enche-se de estrelas e a lua incandesce o meu ser. Porém, neste mundo nada é o que parece e o perfeito não existe. Então, o negro instala-se e a terrível desilusão de quem ama e não quer ver o que o seu inconsciente lhe sugere, apodera-se de mim.

O dia escurece, chuvoso e triste. O sol, tapado pelas nuvens, esconde-se e a alegria que um dia experimentei, transforma-se em solidão e tristeza. Fechado em casa, vejo a água cair do céu, num dia de temporal.

A tempestade dura meses e, durante esse tempo, esqueço-me da luz do sol, das cores do arco-íris e da felicidade que fizera parte de mim. A escuridão é tudo o que conheço e a esperança de dias brilhantes já há muito tempo se dissipou. Sou um ser triste, desgastado e angustiado. Vivo no desespero de não me conseguir erguer novamente, o que me fere o orgulho e me faz afundar.

Lentamente, como todos os que fazem o luto da perda (de um amigo, familiar, ou amor), vou sentindo os dias mais claros. Será a alvorada da primavera? No entanto, os dias continuam cinzentos e nublados, tristes. Embora a minha tristeza se esteja a afastar, ainda me abala.

Saio de casa e encontro amigos que não via, ou não queria reconhecer como tal, há muito tempo – a primeira flor desabrocha, anunciando o fim do negrume. Conheço gente nova, divirto-me, enamoro-me…, apesar de estar atado àquele cinzento que confundo com o negro.

Os dias passam. Parece-me ter deixado o mau tempo para trás, mas continuo preso. Preso numa esplanada coberta, olhando para um jardim repleto de flores, onde intensamente bate o sol, que um dia conheci e fez parte de mim. Como encontrar o caminho? Desconheço, mas sei que um dia irei conseguir. Dificilmente esquecerei a escuridão que me assombrou e sempre terei medo de a enfrentar, pois o tempo não cura tudo. Aliás o tempo não cura nada, o tempo apenas tira o incurável do centro das atenções. (MARTHA MEDEIROS)

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Um homem corre

Do confortável ventre de uma mulher nasce uma vida. Enquanto vai saindo vai chorando, apercebendo-se de que a tranquilidade dada pela sua protetora nunca mais seria a mesma. Petiz, apenas com um ou dois anos, dá os primeiros passos. Aos poucos acelera, começando a correr para nunca mais parar.

Ainda na pré-primária, a criança corre para brincar. Mantém o ritmo nos jogos com os amigos e fá-lo por diversão. Contudo essa fase leve, agradável e jovial da vida também passa a correr.

A cara enche-se-lhe de borbulhas – comum a quem está com 12 anitos – e, nessa ânsia de tudo viver, de tudo experimentar, de tudo fazer, acelera o passo. Que nem um louco, o jovem faz amigos sem conhecer o valor da palavra e apaixona-se pelo seu significado. Deslumbra-se com a boa imagem que alguém transmite e não com a pessoa em si.

O jovem cresce e atinge os 18 anos – idade na qual se julga adulto, sendo  apenas uma criança responsável por si, aos olhos da lei. Dois anos passam num ápice, na luta por se afirmar como adulto – esta só será ganha anos mais tarde – e assim, chega aos 20. Gradual e lentamente, vai-se dando conta da sua ainda baixa posição nesta sociedade, que se sustem na meritocracia das influências  e corre de um lado para o outro, para se aproximar do seu objetivo, o reconhecimento da sua maturidade.

Os 30 chegam – a idade de ouro da vida, cujo vigor da juventude se mantém e já se avizinha o auge profissional. Vive com orgulho de saber que está no topo da cadeia social, alvo de inveja dos mais novos pelo facto de ser reconhecido e dos mais velhos, pela sua juventude. Desfruta, sem pressa nem desespero, a vida e o que esta tem para  lhe oferecer – mas, infelizmente, como tudo, o que é bom passa a correr.

Atinge os 40 e os 50, altura em que o corpo começa a dar os primeiros sinais de fadiga. Os primeiros sintomas do fim surgem, acompanhados pelas dores de toda a sua existência passada. A resistência não é a mesma e olha para os jovens com saudade dos seus tempos áureos, quando podia correr sem se cansar. Luta contra si próprio e contra o tempo, tentando correr pela vida.orville_rogers_500

Os 60 estão aí e o fim, que antes parecia uma miragem, vai emergindo no horizonte, à medida que vai deixando de correr. Os dias parecem-lhe mais curtos; tenta abrandar o tempo, mas este foge-lhe. Resignado, tenta aproveitar os momentos que correm velozmente e se lhe escapam por entre os dedos. Olha para os mais novos com saudade expressa numa lágrima, prevendo o amanhã. Então, não só o tempo, mas a própria vida começa a fugir, enquanto ele espera, serenamente pelo que se segue. Está preparado – o homem correu a  vida inteira, para finalmente enfrentar o sossego da eternidade.

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O FIM

1231Os ponteiros rodaram vezes e vezes sem conta, os dias tornaram-se noite e as diversas fases da lua tornaram-se no sol brilhante aos olhos de todos menos dos meus. Até que o frio deu lugar ao calor e chegou o verão.

Em sonhos lembro-me do doce sabor dos teus lábios, da emoção que sentia quando o teu olhar pousava sobre mim, de como me arrepiava o teu olhar. Recordo-me de dormir nos teus braços e de saber que o meu lugar era aquele. Lembro-me de tudo, menos da tua cara, minha princesa.

Mas depois lembro-me do nosso fim, de todas as coisas que aconteceram pelo meio e pergunto-me se terei sido eu a criar a princesa, que via em ti, ou se algum dia ela terá existido no teu interior?

Passo a vida neste tormento de viver sem saber as razões do nosso fim frio e cruel; e tudo isto, porque não estou contigo para retirar este peso de mim, o mal-estar que só as tuas palavras se atenuaria, por mais duras e atrozes que fossem. Largar-me sem aviso, ao fim de tanto tempo de luta, sem apoios onde me segurar, fizeram-me sentir novamente a criança que, com 6 anos, caíu na piscina sem braçadeiras e que, lentamente, foi-se afundando e se afogando, engolindo uma imensidão de água naquele esbracejar desesperado para se manter à tona. Porém, desta vez não há mão que me puxe para cima e que me traga de novo para a superfície e então caio nas profundesas dessa piscina que se vai transformando num oceano e que parece não ter fundo.

Enquanto me afundo, as memórias de nós perpetuam-se na minha cabeça, os nossos momentos mitifico-os e tu convertes-te em tudo e em nada. Tornas-te a razão da minha felicidade e a razão da minha tristeza. És a minha vontade de me erguer de novo e és o meu desejo de permanecer no fundo.

Procuro-te no meu vaguear diário, que nem um caveleiro andante de espada em punho, à procura da sua amada, louco por ti. Consoantes o tempo passa, essa loucura, esse amor, esse carinho, vão esmorecendo – não que deixem de existir, pois continuam presentes e muito intensos, mas porque o tempo assim  obriga – para deixar na minha cabeça a pergunta que me persegue e que não deixa de me atormentar… PORQUÊ??

E assim, caio e vou caindo no desespero do nosso fim!

http://www.youtube.com/watch?v=By7ctqcWxyM&list=PLA08D6967C3D231C2

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A dúvida

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“As Nossas dúvidas traem-nos e fazem-nos perder o que, com frequência, poderíamos ganhar, pelo simples medo de arriscar.” (William Shakespeare)

Ansiado o amor, dois jovens conheceram-se e enamoraram-se, sem pensarem no que isso significava. Na sua vaidade inocente, típica de quem ainda conhece pouco da vida, apressaram-se a dizer que tinham alguém, antes de se conhecerem verdadeiramente! Jovens e inexperientes enfatuaram-se na sua arrogância, sem procurarem compreender o significado da palavra “namoro” – deste período de conhecimento mútuo, é suposto decorrer o amor. Não era amor ou namoro o que eles procuravam – era, isso sim, a aceitação. Sentiam-se pressionados pelo desejo de agradarem e de pertencerem a esta sociedade de rótulos e estigmas que obriga as pessoas a serem o que os outros idealizam e não aquilo que são…

Foi nessa ânsia que, uma noite, no início de um longo processo de intimidade e carícia, a frase foi dita. O que foi proferido com arrogância, inocência e possivelmente presunção, lentamente se tornou obsessão, conforme os dois jovens se iam apercebendo que o seu namoro, inicialmente provocado pela sua necessidade de aprovação, se transformou em amor. E foram felizes… durante uns momentos! Após a descoberta desse sentimento, tantas vezes dito e ouvido, mas nunca sentido, a vaidade e o orgulho foram relembrados. Todos aqueles instantes perdidos na vã demonstração de soberba e superioridade, enquanto aparentavam impavidez e obstinação, acabaram em mágoa e desespero!

Agora que experienciavam o sentimento verdadeiro, a dor, antes ultrapassável e insignificante, tornou-se um monstro, consumindo a extrema felicidade que sentiam e o passar dos dias era penoso, derrubando-os lentamente. Por muito que tentassem contradizer frases, ditas na sua vaidade e necessidade de cumprir um conjunto de regras ridiculamente impostas pelos ditos “defensores dos bons costumes”, cujo estatuto se consolida através dos juízos de valor sobre o verdadeiro ser, a dúvida consumiu-os, a dúvida derrotou-os e a dúvida destruiu-os. Assim, dois jovens que procuravam uma simples experiência, encontraram o amor puro e simples para depois o perderem.

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Momentos

Perto de uma estação,  uma mulher de idade, acabada, vestida com algo pouco melhor que velhos farrapos e apoiando-se numa bengala, tenta atravessar a confusão mas, no seu trajecto, é atropelada e levada pela enchente de gente a sair porta fora.

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Passam cinco minutos, até que, finalmente, um jovem repara na velha feia, caída no chão e ajuda-a na difícil tarefa de se por em pé. Oferece-lhe o braço para a carregar ao destino, mas ela, com uma voz agastada e um sorriso desdentado, agradece-lhe e diz que não. Um sorriso amável e agradecido, escondido havia anos por detrás daquelas rugas horrorosas e repugnantes; um sorriso que não possuía beleza alguma, mas que o jovem, intrigado e curioso, guardou para si.

Quando deu por si, a mulher já tinha avançado e encontrava-se no fim da rua. Preocupado, ficou a observá-la, não fosse ela cair naquele arrastar pela rua acima. Por fim, deixou de a ver e seguiu o seu caminho.

Nessa noite, foi sair com os amigos, bebeu, discutiu, dançou e riu-se. Beijou uma rapariga que conheceu num bar, conheceu nova e divertida e sentiu-se “grande”. As emoções sucederam-se tão rapidamente que ele nem as aproveitou em pleno mas, quando chegou a casa, já quase ao raiar do sol e ainda sob o efeito do álcool, sentiu-se feliz e completo. Passara uma bela noite!

No dia seguinte acordou ainda um pouco tonto e com a cabeça a latejar. Decidiu ligar a televisão e ver o que estava a dar. Fez zapping durante alguns minutos, até que, a mãe entrou na mesma divisão que ele e pediu-lhe para mudar para as notícias. Desinteressado, levantou-se do sofá onde se encontrava e dirigiu-se ao portátil que estava uns metros ao lado.

Enquanto vageava pela internet, procurando algo com que se entreter, desviou o olhar em direção ao televisor e viu uma notícia sobre uma idosa encontrada morta à porta de um prédio. Imediatamente, lembrou-se daquela velha que havia ajudado no dia anterior e daquele sorriso que tanto o havia intrigado; porém, no dia a seguir, já mal se lembrava da cara da mulher que ajudara e, passado uma semana, já nem se lembrava da ajuda que lhe deu para se levantar.

O que ninguém sabia é que a velha que havia morrido à porta de um prédio, era a mesma que havia caído nesse dia na estação e que só um jovem reparara! O que ninguém sabia era que aquele sorriso amável e agradecido, com que o jovem a deixou, fora o mesmo sorriso com que a velha morrera!

E um dia a velha serei eu!!!

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