Nuvem rejeitada liberta-te

Não é semente em terreno infértil, incapaz de amadurecer e enraizar-se na terra. Porém, é nuvem carregada de água, inofensiva à partida, mas indesejada por todos. Tal como uma maldição, quando chora, fá-lo no momento errado e, portanto, ninguém lhe dá a devida importância.

Se é um mal necessário, ou um bem desvalorizado, não sei! Também não vejo quais as benesses de se debater com esta dicotomia.

No entanto, presumo, e acredito nas minhas capacidades adivinhas, que um dia será chuva tropical, refrescante e alegre, causadora de felicidade finalmente compreendida. Será água num deserto sem fim. Um dia, talvez seja vista como útil e, por ventura, algo especial (todos somos, todos devemos ser) mas, nesta vida, espero que aprenda um bem maior, mais reconfortante e caloroso para o coração – a reconhecer-se.

Ela é algo altruísta que como nós – seus pares – não consegue esquecer o ego e, por isso, nem sempre acerta… mas aplaudida ou vaiada não parará de seguir os seus valores, os seus ideais, por mais antiquados ou divergentes que sejam. Pois, quem os renega, não consegue aceitar-se, mesmo que os outros o façam.

Por isso, nuvem carregada de água segue o teu caminho, faz vingar os teus sonhos.

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O quanto te odiei

O quanto te odiei nestes últimos dias por estares apartado. O quanto mandei vir por não te ver, porque tu não querias (e tinhas esse direito) e eu, saudoso, ansiava ver o meu tio, o meu confidente e meu amigo. O quanto te odiei por não te teres despedido (tu já sabias não era?).

O quanto te odiei por te afastares nestes últimos tempos, por corromperes a tua vida e por abdicares da mesma. O quanto te odiei por não sentir o teu abraço alegre e cheio de essência.

O quanto te odiei por me detestares, quando eu só queria o teu bem. O quando te odiei por não ouvir a palavra “adoro-te” uma última vez.

O quanto te odiei porque ainda acalentava esperanças e via-te a desistir. O quanto te odiei por estares distante e de olhar desalentado (era óbvio que adivinhas o que aí vinha).

O quanto te odiei porque te adoro! Adeus meu tio, meu tutor neste caminho efémero a que chamamos existência e, acima de tudo, adeus meu tio estimado.

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Numa esplanada a tentar apanhar o sol

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Num mundo feliz enfeitado por um arco-íris e iluminado por um sol muito irradiante, o meu dia brilha até onde a vista alcança. À noite, o céu enche-se de estrelas e a lua incandesce o meu ser. Porém, neste mundo nada é o que parece e o perfeito não existe. Então, o negro instala-se e a terrível desilusão de quem ama e não quer ver o que o seu inconsciente lhe sugere, apodera-se de mim.

O dia escurece, chuvoso e triste. O sol, tapado pelas nuvens, esconde-se e a alegria que um dia experimentei, transforma-se em solidão e tristeza. Fechado em casa, vejo a água cair do céu, num dia de temporal.

A tempestade dura meses e, durante esse tempo, esqueço-me da luz do sol, das cores do arco-íris e da felicidade que fizera parte de mim. A escuridão é tudo o que conheço e a esperança de dias brilhantes já há muito tempo se dissipou. Sou um ser triste, desgastado e angustiado. Vivo no desespero de não me conseguir erguer novamente, o que me fere o orgulho e me faz afundar.

Lentamente, como todos os que fazem o luto da perda (de um amigo, familiar, ou amor), vou sentindo os dias mais claros. Será a alvorada da primavera? No entanto, os dias continuam cinzentos e nublados, tristes. Embora a minha tristeza se esteja a afastar, ainda me abala.

Saio de casa e encontro amigos que não via, ou não queria reconhecer como tal, há muito tempo – a primeira flor desabrocha, anunciando o fim do negrume. Conheço gente nova, divirto-me, enamoro-me…, apesar de estar atado àquele cinzento que confundo com o negro.

Os dias passam. Parece-me ter deixado o mau tempo para trás, mas continuo preso. Preso numa esplanada coberta, olhando para um jardim repleto de flores, onde intensamente bate o sol, que um dia conheci e fez parte de mim. Como encontrar o caminho? Desconheço, mas sei que um dia irei conseguir. Dificilmente esquecerei a escuridão que me assombrou e sempre terei medo de a enfrentar, pois o tempo não cura tudo. Aliás o tempo não cura nada, o tempo apenas tira o incurável do centro das atenções. (MARTHA MEDEIROS)

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Um homem corre

Do confortável ventre de uma mulher nasce uma vida. Enquanto vai saindo vai chorando, apercebendo-se de que a tranquilidade dada pela sua protetora nunca mais seria a mesma. Petiz, apenas com um ou dois anos, dá os primeiros passos. Aos poucos acelera, começando a correr para nunca mais parar.

Ainda na pré-primária, a criança corre para brincar. Mantém o ritmo nos jogos com os amigos e fá-lo por diversão. Contudo essa fase leve, agradável e jovial da vida também passa a correr.

A cara enche-se-lhe de borbulhas – comum a quem está com 12 anitos – e, nessa ânsia de tudo viver, de tudo experimentar, de tudo fazer, acelera o passo. Que nem um louco, o jovem faz amigos sem conhecer o valor da palavra e apaixona-se pelo seu significado. Deslumbra-se com a boa imagem que alguém transmite e não com a pessoa em si.

O jovem cresce e atinge os 18 anos – idade na qual se julga adulto, sendo  apenas uma criança responsável por si, aos olhos da lei. Dois anos passam num ápice, na luta por se afirmar como adulto – esta só será ganha anos mais tarde – e assim, chega aos 20. Gradual e lentamente, vai-se dando conta da sua ainda baixa posição nesta sociedade, que se sustem na meritocracia das influências  e corre de um lado para o outro, para se aproximar do seu objetivo, o reconhecimento da sua maturidade.

Os 30 chegam – a idade de ouro da vida, cujo vigor da juventude se mantém e já se avizinha o auge profissional. Vive com orgulho de saber que está no topo da cadeia social, alvo de inveja dos mais novos pelo facto de ser reconhecido e dos mais velhos, pela sua juventude. Desfruta, sem pressa nem desespero, a vida e o que esta tem para  lhe oferecer – mas, infelizmente, como tudo, o que é bom passa a correr.

Atinge os 40 e os 50, altura em que o corpo começa a dar os primeiros sinais de fadiga. Os primeiros sintomas do fim surgem, acompanhados pelas dores de toda a sua existência passada. A resistência não é a mesma e olha para os jovens com saudade dos seus tempos áureos, quando podia correr sem se cansar. Luta contra si próprio e contra o tempo, tentando correr pela vida.orville_rogers_500

Os 60 estão aí e o fim, que antes parecia uma miragem, vai emergindo no horizonte, à medida que vai deixando de correr. Os dias parecem-lhe mais curtos; tenta abrandar o tempo, mas este foge-lhe. Resignado, tenta aproveitar os momentos que correm velozmente e se lhe escapam por entre os dedos. Olha para os mais novos com saudade expressa numa lágrima, prevendo o amanhã. Então, não só o tempo, mas a própria vida começa a fugir, enquanto ele espera, serenamente pelo que se segue. Está preparado – o homem correu a  vida inteira, para finalmente enfrentar o sossego da eternidade.

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O FIM

1231Os ponteiros rodaram vezes e vezes sem conta, os dias tornaram-se noite e as diversas fases da lua tornaram-se no sol brilhante aos olhos de todos menos dos meus. Até que o frio deu lugar ao calor e chegou o verão.

Em sonhos lembro-me do doce sabor dos teus lábios, da emoção que sentia quando o teu olhar pousava sobre mim, de como me arrepiava o teu olhar. Recordo-me de dormir nos teus braços e de saber que o meu lugar era aquele. Lembro-me de tudo, menos da tua cara, minha princesa.

Mas depois lembro-me do nosso fim, de todas as coisas que aconteceram pelo meio e pergunto-me se terei sido eu a criar a princesa, que via em ti, ou se algum dia ela terá existido no teu interior?

Passo a vida neste tormento de viver sem saber as razões do nosso fim frio e cruel; e tudo isto, porque não estou contigo para retirar este peso de mim, o mal-estar que só as tuas palavras se atenuaria, por mais duras e atrozes que fossem. Largar-me sem aviso, ao fim de tanto tempo de luta, sem apoios onde me segurar, fizeram-me sentir novamente a criança que, com 6 anos, caíu na piscina sem braçadeiras e que, lentamente, foi-se afundando e se afogando, engolindo uma imensidão de água naquele esbracejar desesperado para se manter à tona. Porém, desta vez não há mão que me puxe para cima e que me traga de novo para a superfície e então caio nas profundesas dessa piscina que se vai transformando num oceano e que parece não ter fundo.

Enquanto me afundo, as memórias de nós perpetuam-se na minha cabeça, os nossos momentos mitifico-os e tu convertes-te em tudo e em nada. Tornas-te a razão da minha felicidade e a razão da minha tristeza. És a minha vontade de me erguer de novo e és o meu desejo de permanecer no fundo.

Procuro-te no meu vaguear diário, que nem um caveleiro andante de espada em punho, à procura da sua amada, louco por ti. Consoantes o tempo passa, essa loucura, esse amor, esse carinho, vão esmorecendo – não que deixem de existir, pois continuam presentes e muito intensos, mas porque o tempo assim  obriga – para deixar na minha cabeça a pergunta que me persegue e que não deixa de me atormentar… PORQUÊ??

E assim, caio e vou caindo no desespero do nosso fim!

http://www.youtube.com/watch?v=By7ctqcWxyM&list=PLA08D6967C3D231C2

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A dúvida

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“As Nossas dúvidas traem-nos e fazem-nos perder o que, com frequência, poderíamos ganhar, pelo simples medo de arriscar.” (William Shakespeare)

Ansiado o amor, dois jovens conheceram-se e enamoraram-se, sem pensarem no que isso significava. Na sua vaidade inocente, típica de quem ainda conhece pouco da vida, apressaram-se a dizer que tinham alguém, antes de se conhecerem verdadeiramente! Jovens e inexperientes enfatuaram-se na sua arrogância, sem procurarem compreender o significado da palavra “namoro” – deste período de conhecimento mútuo, é suposto decorrer o amor. Não era amor ou namoro o que eles procuravam – era, isso sim, a aceitação. Sentiam-se pressionados pelo desejo de agradarem e de pertencerem a esta sociedade de rótulos e estigmas que obriga as pessoas a serem o que os outros idealizam e não aquilo que são…

Foi nessa ânsia que, uma noite, no início de um longo processo de intimidade e carícia, a frase foi dita. O que foi proferido com arrogância, inocência e possivelmente presunção, lentamente se tornou obsessão, conforme os dois jovens se iam apercebendo que o seu namoro, inicialmente provocado pela sua necessidade de aprovação, se transformou em amor. E foram felizes… durante uns momentos! Após a descoberta desse sentimento, tantas vezes dito e ouvido, mas nunca sentido, a vaidade e o orgulho foram relembrados. Todos aqueles instantes perdidos na vã demonstração de soberba e superioridade, enquanto aparentavam impavidez e obstinação, acabaram em mágoa e desespero!

Agora que experienciavam o sentimento verdadeiro, a dor, antes ultrapassável e insignificante, tornou-se um monstro, consumindo a extrema felicidade que sentiam e o passar dos dias era penoso, derrubando-os lentamente. Por muito que tentassem contradizer frases, ditas na sua vaidade e necessidade de cumprir um conjunto de regras ridiculamente impostas pelos ditos “defensores dos bons costumes”, cujo estatuto se consolida através dos juízos de valor sobre o verdadeiro ser, a dúvida consumiu-os, a dúvida derrotou-os e a dúvida destruiu-os. Assim, dois jovens que procuravam uma simples experiência, encontraram o amor puro e simples para depois o perderem.

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Momentos

Perto de uma estação,  uma mulher de idade, acabada, vestida com algo pouco melhor que velhos farrapos e apoiando-se numa bengala, tenta atravessar a confusão mas, no seu trajecto, é atropelada e levada pela enchente de gente a sair porta fora.

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Passam cinco minutos, até que, finalmente, um jovem repara na velha feia, caída no chão e ajuda-a na difícil tarefa de se por em pé. Oferece-lhe o braço para a carregar ao destino, mas ela, com uma voz agastada e um sorriso desdentado, agradece-lhe e diz que não. Um sorriso amável e agradecido, escondido havia anos por detrás daquelas rugas horrorosas e repugnantes; um sorriso que não possuía beleza alguma, mas que o jovem, intrigado e curioso, guardou para si.

Quando deu por si, a mulher já tinha avançado e encontrava-se no fim da rua. Preocupado, ficou a observá-la, não fosse ela cair naquele arrastar pela rua acima. Por fim, deixou de a ver e seguiu o seu caminho.

Nessa noite, foi sair com os amigos, bebeu, discutiu, dançou e riu-se. Beijou uma rapariga que conheceu num bar, conheceu nova e divertida e sentiu-se “grande”. As emoções sucederam-se tão rapidamente que ele nem as aproveitou em pleno mas, quando chegou a casa, já quase ao raiar do sol e ainda sob o efeito do álcool, sentiu-se feliz e completo. Passara uma bela noite!

No dia seguinte acordou ainda um pouco tonto e com a cabeça a latejar. Decidiu ligar a televisão e ver o que estava a dar. Fez zapping durante alguns minutos, até que, a mãe entrou na mesma divisão que ele e pediu-lhe para mudar para as notícias. Desinteressado, levantou-se do sofá onde se encontrava e dirigiu-se ao portátil que estava uns metros ao lado.

Enquanto vageava pela internet, procurando algo com que se entreter, desviou o olhar em direção ao televisor e viu uma notícia sobre uma idosa encontrada morta à porta de um prédio. Imediatamente, lembrou-se daquela velha que havia ajudado no dia anterior e daquele sorriso que tanto o havia intrigado; porém, no dia a seguir, já mal se lembrava da cara da mulher que ajudara e, passado uma semana, já nem se lembrava da ajuda que lhe deu para se levantar.

O que ninguém sabia é que a velha que havia morrido à porta de um prédio, era a mesma que havia caído nesse dia na estação e que só um jovem reparara! O que ninguém sabia era que aquele sorriso amável e agradecido, com que o jovem a deixou, fora o mesmo sorriso com que a velha morrera!

E um dia a velha serei eu!!!

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